Reflexões sobre a crise, por Marcus Lima.

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22/10/2008 19:00

“Ontem, em reunião na Comunidade Européia, o Nicolas Sarkozy, num esforço a mais para combater a crise, tentou vender aos seus pares o conceito de um “Governo Econômico”. Com isso ele quis destacar o estado precário da União Européia no combate a esta crise. Um estado precário pois há um problema econômico de proporções inéditas a ser tratado por uma estrutura sem poder político para tanto: o Banco Central Europeu (ECB).

O ECB tem como objetivo a busca de uma meta de inflação para a zona do Euro. Para tanto, ele determina a taxa de juros de referência como qualquer Banco Central pelo mundo. Ocorre que, no seu caso, a Europa ainda é um aglomerado de Estados-Nação, com economias e principalmente poder político fragmentados. O resultado disso é uma mesma taxa de juros que para um país X pode representar uma política monetária expansiva (juros baixos) e ao mesmo tempo restritiva (juros altos) para outro país Y. Em tempos de bonança (que é o que o Euro até aqui viveu em sua pequena jornada como moeda), este problema é administrável, principalmente via alocação de empréstimos feitos pelos bancos comerciais de um país com filiais em outros, em operações de carry trade por exemplo, que podem suprir de crédito onde há escassez de capital mas abundam oportunidades de negócio. Em tempo de crise, a estória é outra…

Para exemplificar: a incorporação do leste europeu, países bálticos e balcãs à Comunidade Européia (não ao Euro, bem entendido) representou uma grande oportunidade para que o sistema financeiro europeu aumentasse seus negócios:

- Francos suíços foram emprestados a bancos austríacos que, por sua vez, aproveitando a herança histórica em comum com a Hungria, aplicou neste país extensivamente, chegando a 80% do mercado de crédito na Hungria ser lastreado e, principalmente indexado, em francos suíços. Operação típica de carry trade igual a feita com Ienes japoneses na Islândia com sabor amargo aos ingleses, que também faziam o mesmo… A Islândia quebrou e a Hungria receberá do ECB (sem fazer parte do Euro!) um resgate financeiro.

- A Suécia, por razões culturais, investiu pesadamente nos países bálticos. Nesta semana o governo sueco anunciou um pacote no valor de aproximadamente 50% do PIB (isso mesmo, 50%) de forma a garantir seus bancos pesadamente investidos naqueles países que hoje estão entrando em recessão.

- Nos balcãs, os “mecenas” são os bancos italianos, austríacos (de novo) e gregos (sendo que alguns destes têm mais empréstimos que depósitos em contrapartida)

- Mercados imobiliários mais aquecidos na Inglaterra, Irlanda e Espanha, fomentados pela era de juros baixos e pela enorme liquidez dos mercados…

Em resumo, temos problemas variados de alavancagem e negócios arriscados espalhados por toda Europa. Mas falta um Banco Central de verdade. Vários são os Tesouros, mas estes são dos países, vão defender os interesses de seus cidadãos e seus bancos, não necessariamente trabalharão com uma visão global do problema em questão.

Portanto, é de se questionar, o que é mais perigoso: um sistema financeiro regulamentado de forma fragmentada, mas extremamente criativo, que experimenta a fronteira da administração de risco e com isso acaba criando instrumentos alguns úteis, alguns perigosos, mas que, mal ou bem, estão sob um mesmo terreno regulatório e político ou um sistema financeiro que é menos criativo, não menos alavancado, explorador de fronteiras físicas (não da administração de risco), mas que não estão sob um terreno regulatório comum, muito menos político?

Qualificar “Governo” de “Econômico” é uma tentativa fugaz de tentar convencer os governos europeus de que é necessário, para a solução desta crise, que se abra espaço para finalmente, na Europa, haver um terreno político e regulatório comum. Mas isso já ha muito foi tentado em outras facetas da vida em uma entidade supranacional como a UE. Não há como dissociar economia, de política, de social… Sugerir o contrário, e falar em “Governo Econômico”, é algo ou muito fantasioso, ou muito desesperado…

 

Abs,
Marcus Lima

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